Ainda Estou Aqui, vencedor do melhor filme estrangeiro no Oscar deste ano – Fernanda Torres não levou o papel de melhor atriz, mesmo depois de sua excepcional atuação como Eunice Paiva, mulher de Rubens Paiva, morto pelo regime militar – até hoje seu corpo não foi encontrado –, coroa a grande evolução do cinema nacional ao longo desses anos. Já havíamos chegado perto com sua mãe, Fernanda Montenegro, com Central do Brasil, também produzido por Walter Salles. Mas não levamos.
As filmagens de Central do Brasil começaram em 8 de novembro de 1996 e terminaram em meados de fevereiro de 1997. A estação Central do Brasil foi o primeiro local de gravação. O filme conta a história de Dora, uma professora aposentada que escreve cartas para analfabetos na Central do Brasil, a maior estação de trens do Rio de Janeiro.
A lista de filmes brasileiros excelentes é longa. Vou citar alguns, começando com Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha; Vidas Secas, de Nelson Pereira do Santos; Terra em Transe, de Glauber Rocha; O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla; Cidade de Deus, de Fernando Meirelles e Kátia Lund; O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte; Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade; Pixote, a Lei do Mais Fraco, de Hector Babenco; O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho; Bye Bye Brasil, de Carlos Diegues; O Assalto ao Trem Pagador, de Roberto Faria; Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Bruno Barreto; Tropa de Elite I e II, de José Padilha; O Auto da Compadecida, de Guel Arraes; A que Horas Ela Volta, de Anna Muylaert; Estômago, de Marcos Jorge. Tem muitos mais. Mas não vou deixar esse texto enfadonho em excesso.
Curiosamente, é no sertão da Paraíba, mais especificamente na cidade de Cabaceiras, com pouco mais de 6 mil habitantes, que um enorme letreiro, inspirado no de Hollywood na entrada da cidade, diz que você está chegando à “Roliúde” brasileira, onde muitos filmes e séries foram gravados. O local virou locação para várias produções devido a sua geografia cheia de pedras, caatinga e falta de chuva, o que permite gravar sem muitas interrupções.
O município está incluído na área geográfica de abrangência do semiárido brasileiro, definida pelo Ministério da Integração Nacional em 2005. Esta delimitação tem como critérios o índice pluviométrico, o índice de aridez e o risco de seca. As chuvas são, portanto, irregulares e esparsas e temperaturas médias na ordem dos 30oC. Com média de apenas 350 mm durante o ano todo, as precipitações ocorrem em poucos meses, dando vazão a estiagens que duram até 10 ou 11 meses nos períodos mais secos, conferindo a Cabaceiras o título de município onde menos chove no país.
A clássica peça de Ariano Suassuna, adaptada por Guel Arraes, continua até hoje na memória de quem, há cerca de 25 anos, assistiu a O Auto da Compadecida, que imortalizou dois grandes atores: Selton Mello, que fez o papel de Rubens Paiva em Ainda Estou Aqui, e Matheus Nachtergaele, nos papéis de Chicó e João Grilo, respectivamente. Este ano foi lançada a parte dois do filme, com os dois atores, já com as rugas do tempo.
O Auto da Compadecida 2 foi filmado em um estúdio de LED, no Rio de Janeiro, onde foram recriadas as ruas da cidade fictícia de Taperoá, na Paraíba.Para isso, foram utilizados painéis de alta tecnologia que transmitiam imagens do cenário em movimento para que os atores pudessem interagir com o ambiente em tempo real.
Outro marco foi a série Cangaço Novo, de 2023, que conta a história de Ubaldo, banqueiro que mora em São Paulo, com dificuldades financeiras, enquanto cuida do pai adotivo, adoentado. A situação começa a mudar quando ele descobre uma herança deixada pelo seu pai biológico, um influente homem na fictícia cidade de Cratará, no sertão cearense.
Ubaldo também descobre que tem duas irmãs no sertão cearense: Dilvânia, que lidera um grupo comandado anteriormente por seu falecido pai; e Dinorah uma única mulher em uma gangue de ladrões de banco. Chegando na cidade Ubaldo é chamado a cumprir seu destino como o cangaceiro e líder supremo da gangue.
Em época de eleições, a cidade vive uma convulsão social, com o prefeito tentando a qualquer custo se reeleger com promessas, santinhos e falcatruas, de um lado, e os opositores de outro, aliados e financiados por um grupo criminoso que bota o terror no sertão, liderado por Sabiá e seus capangas.
A série teve grande sucesso no Prime Video que, em fevereiro deste ano, anunciou a gravação de uma segunda temporada. Além de Cabaceiras, a série foi gravada em outros locais do sertão paraibano.
A 70 quilômetros de Campina Grande e 190 de João Pessoa, a população local costuma participar como figurantes ou auxiliando em outros trabalhos as produções que são feitas por lá, o que gera renda em uma das regiões mais carentes do Nordeste.
O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do município de Cabaceiras, na Paraíba, em 2000, era de 0,682, considerado médio.Em 2010, o município de Cabaceiras estava na posição 47a na lista de municípios da Paraíba por IDH-M, com um IDH de 0,611.
A primeira gravação realizada em Cabaceiras foi a do curta Sob o Céu Nordestino em 1929. Depois vieram mais 51 produções audiovisuais, entre elas Cinemas, Aspirinas e Urubus (2005), Canta Maria (2006) e Onde Nascem os Fortes (2018). Mas é inegável que a mais marcante foi o já citado O Auto da Compadecida, de 2000, dirigido por Guel Arraes.
Outro atrativo são os passeios guiados por casas e pontos da cidade que serviram de locação, especialmente para O Auto da Compadecida, tanto no centro rural como na área urbana, onde se destaca a igreja Nossa Senhora da Conceição que fez parte da gravação de cenas importantes de O Auto da Compadecida.
Outra visita de quem vai a Cabaceiras é a “casa da cachorra”, que aparece na cena do enterro da cachorra Xaréu, preservada no terreno do Hotel Fazenda Rancho da Ema, uma das poucas opções de hospedagem na cidade. Também o Armazém de Secos e Molhados, retratado no filme Maria Bonita e o Cangaço, é ponto de atração na cidade.
Se o centro cinematográfico de Cabaceiras já é um sucesso, é no interior da região que estão as atrações mais deslumbrantes para quem é amante da natureza.O Lajedo do Pai Mateus merece uma visita. Trata-se de um conjunto de pedras enormes e arredondadas, esculpidas pelo vento por milhões de anos, que forma uma espécie de galeria de esculturas naturais a céu aberto. Quem assistiu a Cangaço Novo irá reconhecer o lugar, cenário para algumas das cenas mais marcantes da série.
O Lajedo do Pai Mateus é apenas uma das paradas da Rota dos Lajedos de Cabaceiras. A cidade é ponto de partida para outros cenários que combinam formações rochosas e a vegetação da Caatinga, como o Lajedo da Gangorra, o Lajedo Salambaia (famoso por buracos na rocha que formam pequenas lagoas) o Lajedo Manuel de Souza (com pinturas rupestres pré-históricas). Vale a pena explorar também a Pedra da Pata (com uma bela vista panorâmica para a região), a Muralha do Cariri (uma elevação rochosa de cem metros de comprimento e três de altura) e a Saca de Lã, um conjunto de rochas retangulares que forma uma intrigante pirâmide.
Bode, símbolo maior
O bode é símbolo da cidade, onde uma enorme estátua no centro da cidade mostra a sua importância. Do animal se aproveita tudo. Couro para se fazer sapatos, bolsas, cordões, colares, peças de vestuário etc. A carne é o alimento principal. E todos os anos se realiza a festa do Bode Rei, que este ano, em junho, entra em sua 26ª versão. O evento movimenta a cidade, com estimativa entre 40 e 60 mil pessoas durante os três dias de evento, reunindo shows e culinária local, logicamente quase toda voltada para o bode.
Recentemente, a Vara Única de Boqueirão determinou a proibição total de bodes em atividades de competição durante a Festa do Bode Rei, em Cabaceiras. As atrações afetadas serão o “Pega Bode”, “Fórmula Bode”, “Bode no Sebo”, “Futebode” e qualquer outro tipo de evento semelhante.
Uma festa transformadora
A Festa do Bode Rei, que este ano entra em sua 26a edição, foi objeto de tese da aluna Jozeneide Severina Pereira, da Universidade de Campina Grande. Com o título de A Festa do Bode Rei: cultura, economia e transformações espaciais no município de Cabaceiras – PB, ela descreve as transformações ocorridas com a festa, insuficiente, no entanto, para dar sustentabilidade ao município.
Na abertura de sua tese ela diz:
“Com poucas alternativas de desenvolvimento, a realização de eventos festivos em localidades interioranas tem se propagado intensivamente nos últimos anos. Desse modo o presente estudo tem como objetivo analisar os avanços na economia local, a valorização cultural e as transformações espaciais a partir da realização da Festa do Bode Rei no município de Cabaceiras, estado da Paraíba. Verificou-se por meio deste estudo, que houve transformações nas condições econômicas do município, mas ainda se mostram insuficientes para a sustentabilidade dele. As transformações espaciais e as transformações das condições econômicas foram percebidas a partir das pesquisas de cunho qualitativo realizadas no município de Cabaceiras e se apresentam, no geral, de forma ascendente, ao longo de 17 anos. Porém, ainda se mostram fragilizadas, mas com expectativa de melhorias e crescimento do local. Sob essa perspectiva, observou-se que diante da necessidade e da realidade do lugar, algumas ações já foram impulsionadas para minimizar tais fragilidades, contribuindo para implantações de políticas públicas voltadas às questões econômicas, sociais e culturais para o referido município”
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