Mary Shelley, que aos dezoito anos cercada por tempestades físicas e metafísicas, escreveu Frankenstein no verão de 1816, à beira do Lago de Genebra, na companhia de seu marido, o poeta Percy Bysshe Shelley, de Lord Byron e de John Polidori, moldou uma criatura feita de restos humanos e rejeitada por seu criador; nós apenas trocamos o laboratório por telas e algoritmos. Chegamos ao século XXI cercados por tecnologias revolucionárias, como a inteligência artificial, mas continuamos com os mesmos medos e angústias de sempre. Frankenstein sobrevive porque continua a nos refletir, como um espelho, essas angústias que nos afligem em um mundo cada vez mais hostil.

Vivemos em um mundo altamente tecnológico,
mas ainda reagimos como no passado: tememos o diferente, confundimos aparência com valor moral e continuamos a rejeitar o que não compreendemos. Shelley escreveu sobre uma criatura feita de restos humanos e rejeitada por seu criador; nós apenas trocamos o laboratório por telas e algoritmos. Chegamos ao século XXI cercados por tecnologias revolucionárias, como a inteligência artificial, mas continuamos com os mesmos medos e angústias de sempre. Frankenstein sobrevive porque continua a nos refletir. Em cada época, muda de rosto, mas conserva o mesmo olhar de quem só quer viver. Quer uma casa, um amigo, uma mão estendida, o que todo ser vivo busca: não ser temido. Essa é a razão pela qual Frankenstein ou o Moderno Prometeu permanece inesgotável. A cada leitura, a obra se transforma, ora trata da ciência e de seus limites, ora do amor e da solidão. Sempre, porém, é uma reflexão. Quando o monstro olha para o mundo e não se reconhece, somos nós diante de nossa própria história. Shelley compreendeu que criar exige responsabilidade; o verdadeiro terror não está em criar, mas em abandonar.
No final do livro, o monstro reaparece diante do corpo do criador. Chora sobre ele e confessa o que se tornou. Diz que o ódio o deformou mais do que qualquer cicatriz, que a vingança é apenas outra forma de solidão. “O anjo caído torna-se um demônio maligno”, diz ele, “ainda assim, até esse inimigo de Deus e dos homens teve amigos em sua desolação. Eu estou só.” É a confissão de quem compreende tarde demais que o mal não nasce com o ser, mas com o abandono. Depois dessas palavras, a criatura anuncia que vai se exilar nas regiões mais geladas do norte. Quer desaparecer, consumida pelo fogo que a moveu. O narrador a vê afastar-se sobre o mar congelado, até que sua sombra se confunde com a neblina. Shelley termina ali, deixando o leitor na dúvida: o monstro morre ou apenas atravessa o horizonte?
Gosto de pensar que ele não morreu. Ele vive neste novo universo onde, criador, criatura e espectador são a mesma alma, aquela que vaga entre as neves, carregando nas mãos o fogo que um dia roubou dos deuses.
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