Texto na Íntegra
Comecei a ler o livro A Ausência que Seremos, do jornalista Héctor Abad,
nascido em Medellín, na Colômbia, em 1958. Publicou uns oito romances, ganhando prêmios internacionais por sua obra. Não o conhecia. Aimar Labaki, que foi o autor do Bate-Papo com a Andréa Beltrão que publicamos na edição de outubro (acesse Aqui), nos emprestou o livro que relutei um pouco em começar a ler. Fiquei viciado na literatura russa, e sempre descubro novos autores, como se lá cada pessoa já nascesse com o dom de escritor.

Editado pela Companhia das Letras, o livro é uma mistura de biografia, ensaio, crônica social, onde conta a história de seu pai, um ferrenho médico sanitarista, liberal, casado com uma mulher conservadora, mas com traços de liberalismo. Uma das coisas que me chamou a atenção no livro – ainda nem cheguei na metade das 317 páginas da obra –, foi a árdua defesa que seu pai, Abad Gómez, fez da importância da água tratada e do esgotamento sanitário para a vida das pessoas, especialmente das crianças.
Nos bairros mais miseráveis de Medellín, Gómez ia tentar conscientizar as pessoas sobre a necessidade da água tratada, pois as crianças morriam de desinteria e desnutrição. Crianças baixas e magras pelas suas idades, não conseguiam estudar. Gómez media o perímetro encefálico dos recém-nascidos, tirava fotos das crianças com vermes, magras e barrigudas, para depois mostrar em suas aulas na universidade. Isso no início do longínquo ano de 1960. Ainda no tempo de estudante conseguiu tornar obrigatória a pasteurização de todo o leite antes de ser distribuído, pois nos exames que fizera em laboratório com o leite vendido em Medellín e cidades vizinhas, encontrara amebas, bacilos de Koch e fezes.
“Defendida a ideia elementar”, como diz Héctor Abad, “mas revolucionária por beneficiar a todos e não a alguns poucos, de que a prioridade era a água, e os recursos não deveriam ser gastos em outras coisas enquanto todos não tivesse garantido o acesso à água tratada”. Foi, junto com o americano doutor Richard Saunders, quem implantou na Colômbia o Future for the Children, ou Futuro para a Infância, onde o saneamento básico era um dos principais pilares.
Mas a sua atuação nas comunidades mais pobres era vista pelos conservadores da Colômbia, que governaram o país por décadas, como atos terroristas, de subversão à ordem estabelecida. Muitos de seus colegas de universidade foram mortos por movimentos conservadores. A Guerra dos Mil Dias que assolou a Colômbia entre 1899 e 1902, deixou cerca de 100 mil mortos. La Violência, outro conflito entre conservadores e liberais deixou milhares de vítimas, nascendo o Bogotazo, grupo paramilitar de conservadores extremistas, surgido no distrito de Chulavita, que se espalhou pela Colômbia. Gómez foi ameaçado de morte por esse grupo que assassinava liberais, comunistas e maçons. Provavelmente foi salvo nessa época ao receber um convite para trabalhar na Organização Mundial da Saúde, em Washington.
Mas a Colômbia acabou afundando em um mar de violência que desaguou no assassinato de Abad Gómez em 1987, por suas críticas ao regime político, à corrupção. Sua luta de médico sanitarista para que as pessoas tivessem acesso a água e esgoto tratado, se vacinassem – era um aficionado por estatísticas, já que sem um bom Censo era impossível traçar, cientificamente, políticas públicas, como acreditava –, foi soterrada pelo avanço “progressivo da nova epidemia que no ano de sua morte registrou mais homicídios que num país em guerra, e que no começo de 1990 levou a Colômbia a ter a triste primazia de país mais violento do mundo. Já não eram mais doenças com as quais tanto lutara (tifo, enterite, malária, tuberculose, pólio, febre amarela) que ocupavam as primeiras posições entre as causas de morte no país”, escreve seu filho, Héctor Abad.
Seguindo o exemplo
Depois de quase 40 anos do assassinato de Abad Gómez, na última década o acesso a água potável e esgoto tratado melhorou bastante na Colômbia, embora ainda persistam desafios importantes que passam por uma cobertura ainda insuficiente, especialmente nas zonas rurais, e uma qualidade considerada inadequada nos serviços de fornecimento de água e tratamento de esgoto. Em 2024, 93% da população colombiana tinha acesso à água potável e 83% ao saneamento. A população rural que representa cerca de 23% da população, tinha coberturas mais modestas: 71% à água e 54% ao saneamento. Em comparação com outros países da América Latina, o setor de saneamento vem recebendo altas somas de investimentos, com a existência de algumas grandes empresas públicas eficientes e uma forte participação do setor privado no setor.
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