O vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, afirmou que o Brasil pretende negociar o tarifaço imposto aos países pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, por meio do diálogo e que apesar de o Brasil ter sido um dos menos prejudicados, a guerra tarifária entre países não é boa para ninguém. Alckmin também ventilou a possibilidade de ser firmado um acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, que seria, ao seu ver, um dos maiores do mundo. E demonstrou animação em relação ao resultado que está por vir para o comércio exterior por conta da visita recente feita pelo presidente Lula à Ásia.
Sobre as pesquisas que mostram uma queda na popularidade do presidente Lula, Alckmin minimizou a questão. Disse que pesquisa é coisa de momento e que fatores como a crise climática e a inflação dos alimentos contribuíram para isso, mas o governo tomou medidas com rapidez, que em breve refletirão junto à população. Sobre seu futuro político, desconversou e disse que vice não se lança candidato. Mas afirmou que a candidatura de Lula à reeleição é “mais do que natural”, considerando-se que é o único brasileiro que foi presidente da República três vezes. Também falou da fragmentação partidária, com mais de 30 partidos, que dificulta governar.
De forma descontraída, o vice-presidente ainda contou histórias sobre Marco Maciel, com quem conviveu e sobre Mário Covas, um dos seus padrinhos na política. Também relatou como relaxa quando viaja para ficar em contato com a natureza no seu sítio, localizado na zona rural de Pindamonhangaba (SP).
Para começar vice-presidente, gostaria de pedir para o senhor mandar um abraço para o povo do Nordeste.
Quero dizer que é uma honra estar aqui falando para o populoso Nordeste e mandar um abraço para os estados da região.
Estamos aqui no dia seguinte à taxação do Donald Trump [presidente dos Estados Unidos, que decretou um tarifaço para todos os países]. Sabemos que o presidente Lula chamou o senhor de imediato após a decisão para uma reunião no Palácio de Planalto para tratar do assunto. Que medidas vocês tomaram para garantir que os efeitos sejam menos perversos à indústria brasileira e ao empresariado?
Nós entendemos que o comércio exterior é importantíssimo. Ele gera empregos, estimula a inovação, traz competitividade. Precisa ter regras, por isso existe a Organização Mundial do Comércio(OMC). Então entendemos que a decisão unilateral dos Estados Unidos não é boa para o comércio, porque cria imprevisibilidade, insegurança e isso diminui o investimento. Mesmo o Brasil tendo ficado com a menor tarifa em comparação com outros países, mesmo sabendo que para outros países a medida foi muito pior, para nós também foi ruim. Então o caminho que vemos é o do diálogo, da negociação e é isso que vamos fazer.
O presidente Lula disse que vai fazer o possível para preservar as empresas. O que é que vocês estão pensando neste sentido?
Olha, foi votado pelo Senado e pela Câmara um projeto de lei que vai ser sancionado, que estabeleceu um arcabouço jurídico para o Brasil poder responder a essas medidas. É uma boa legislação, necessária e importante, mas nós não pretendemos usá-la agora, porque queremos fazer o diálogo e a negociação. Mesmo o Brasil ficando com a menor tarifa (de 10%), ela é ruim. Ninguém ganha numa guerra tarifária, ninguém. Vamos ficar atentos a desvios de mercado, de comércio. Porque se você tem um bloqueio em determinado lugar, isso pode desaguar no Brasil, prejudicando a indústria e o comércio local. Então vamos ficar atentos com os critérios para qualquer alteração do comércio exterior. Por outro lado, eu acho que isso vai acelerar o acordo Mercosul-União Europeia.
O Brasil vai buscar outros parceiros?
O acordo Mercosul-União Europeia é o maior acordo do mundo hoje. Envolve 720 milhões de pessoas, US$ 22 trilhões. Os cinco países do Mercosul, com a entrada da Bolívia, e 27 dos países mais ricos do mundo na União Europeia. É um ganha a ganha, é assim que vejo o comércio exterior.
Como o senhor avalia o argumento do presidente Donald Trump para adotar esse tarifaço? Ele disse que fez isso para preservar empregos, que vai valorizar a indústria americana.
Os Estados Unidos têm um enorme déficit comercial. É um país que exporta, mas importa muito mais, então isso gera um grande déficit na balança comercial americana. Só que eles não têm isso com o Brasil. Com o Brasil eles têm superávit comercial em serviços de US$ 18 bilhões, e em bens, de US$ 7 bilhões. Só no ano passado o superávit foi de US$ 25 bilhões no total. Então o Brasil não é problema para os Estados Unidos. Agora, é um mercado importante para nós, porque embora não seja o maior parceiro (hoje nosso maior parceiro comercial é a China), é um parceiro para quem nós vendemos maior volume de produtos de valor agregado: avião, motores, autopeças, máquinas, retroescavadeiras. Então tenho marcadas, já para a próxima semana, reuniões entre as equipes técnicas para a gente trabalhar.
Se o Brasil não é problema para os Estados Unidos, porque Trump incluiu o Brasil?
Ele incluiu praticamente todo mundo.
Mas havia uma expectativa de o Brasil não ser incluído…
É. Ele incluiu na tarifa menor. Para outros países o percentual foi de 25%, e para os países asiáticos, de 50%. Embora tenhamos ficado com a menor tarifa, não é bom nem para nós nem para os Estados Unidos, porque quem quiser adquirir produtos vai acabar comprando mais caro.
Eu fiquei com a impressão, e muita gente também, de que o Trump tomou essa medida em relação ao Brasil em retaliação à campanha passada, uma vez que o presidente Lula ficou do outro lado, no apoio ao adversário dele…
Acho que não. Na realidade, o que acontece é que ele [Trump] está tentando atrair de volta empresas para os Estados Unidos, só que isso é uma coisa de meio século atrás, quando você tinha uma política de substituir importação. Então eu vou substituir importação para produzir aqui, faço um protecionismo. Só que agora o mundo é outro. Estamos em outro momento. Mas temos de respeitar a decisão de outros países e proteger e defender o comércio brasileiro, buscar mercado. Agora mesmo, o presidente Lula esteve no Japão e no Vietnã numa viagem muito bem-sucedida, já vem para cá uma missão que vai avaliar a questão da carne, para que possamos exportar carne para o Japão. Também estamos discutindo a questão do etanol, de venda de aviões. Então, o negócio é abrir o mercado.
Qual a forma mais simples para isso?
O Brasil é favorável ao comércio exterior. O Mercosul já fez no ano passado acordo com Cingapura, podemos fazer com a União Europeia, enfim, agora é abrir mercado, colocar o produto brasileiro lá fora, ter complementaridade econômica. Veja o caso do aço, nós somos o terceiro maior comprador do carvão siderúrgico dos Estados Unidos. Aí fazemos aqui o semielaborado, exportamos para os Estados Unidos e eles fazem o elaborado do aço. Há uma complementaridade na cadeia. O que nós devemos fazer é ver outras oportunidades de investimentos recíprocos e complementaridade econômica. É nisso que nós acreditamos e pelo qual vamos trabalhar.
Fernando Henrique Cardoso disse uma vez que Marco Maciel era o vice dos sonhos de todo presidente. A cartilha de Maciel é muito parecida com a do senhor, de discrição e elegância. Quando exerce a presidência da República interinamente a gente quase não vê notícias a seu respeito, exatamente como agia Marco Maciel. O senhor chegou a conviver com ele?
Eu tinha um grande carinho pelo Marco Maciel. Era meu companheiro de missa. Quando ele ia para São Paulo a gente se encontrava muito nas missas por lá. E o Marco Maciel tinha um espírito público e uma capacidade de trabalho impressionante. Sem falar que era muito bem-humorado.
Apagador de incêndios, não é? O ex-presidente Fernando Henrique dizia que ele era o bombeiro do governo.
Isso mesmo. E muito ponderado, além de excelente contador de histórias. Tenho duas para contar (rindo). Uma vez ele me relatou que estava numa reunião no interior de Pernambuco com vereadores e prefeitos. E ia falando com um por um, numa roda. Aí chegou num deles e perguntou “e você?”. O rapaz respondeu “não, não, eu tô só expectorante” (risos). Marco também contou que um amigo dele plantou muito e ficou apavorado de não chover. Aí consultou vários outros órgãos técnicos e de pesquisa e todos disseram “não chove”. Desesperado, ele foi para a fazenda e chamou o Zé Dito, que estava lá há 30 anos. Zé Dito olhou para o céu, olhou de novo, e afirmou confiante: “vai chover doutor, vai chover”. E ele, “mas como é que você tem tanta certeza?”. Zé Dito respondeu: “é que se não chover doutor, nós tá frito”. (Ver na edição de abril de Mais Nordeste resenha do livro sobre Marco Maciel: acesse aqui)
José Maria Trindade/Rádio Jovem Pan: Presidente, queria que o senhor avaliasse o que vai acontecer no mundo depois dessa postura nova do presidente Trump e do tarifaço.
Realmente, a medida enfraquece o multilateralismo, enfraquece a Organização Mundial do Comércio (OMC) e tem impacto não só nos Estados Unidos, mas na economia mundial. Como é que isso vai se desdobrar, nós vamos trabalhar para que seja com o menor impacto possível. O caminho do Brasil, mesmo tendo ficado com a menor tarifa, o fato de para os outros ter sido pior, não quer dizer que foi bom para nós. Então vamos buscar diálogo e negociação. O comércio exterior é positivo. Se eu sou mais competitivo numa área, vendo para você, se você é mais competitivo em outra área, vende para mim. Ganha o conjunto da sociedade e se cria complementaridade na cadeia econômica. Esse é o bom caminho. Já vamos trabalhar na próxima semana em busca de negociação. E o presidente Lula, claro, agradece ao Congresso Nacional por ter votado em caráter de urgência uma legislação que dá ao país o arcabouço político para que possam ser tomadas as medidas que precisam ser tomadas para proteger o emprego e as empresas do Brasil.
Com relação a essa iniciativa ter partido do Senado, o Congresso saiu antes do governo. Não deveria ter sido o contrário, de o governo ser o primeiro a tomar essas medidas?
Não, porque já existia a proposta no Senado. Essa proposta começou a ser estudada quando a União Europeia começou a estabelecer restrições ao agro em relação a fatores ambientais, com medida protecionista. Iniciou-se um trabalho no Senado para a questão ambiental, para evitar punições por parte da UE ao agro brasileiro nessa questão ambiental. E como já havia esse projeto andando, ele foi aperfeiçoado com a colaboração do governo, e foi feita uma boa legislação aprovada pelo Senado e aprovada em 24 horas pela Câmara dos Deputados.
De lá para cá, em meio a esse turbilhão, quais os setores da economia, da indústria, que mais procuraram o senhor em busca de medidas por parte do Brasil e de uma palavra mais confortável?
Os mais atingidos foram os que tiveram uma alíquota de 25%, que foram os setores de aço, alumínio, veículos e autopeças. O aço foi o mais atingido, porque somos grandes exportadores de aço semielaborado para os Estados Unidos. Só perdemos para o Canadá, estamos empatados com o México. Mas fomos procurados por todos e estamos trabalhando em conjunto com a iniciativa privada, com o setor privado.
Betânia Santana/Folha de Pernambuco: Como o Brasil vai se comportar daqui por diante na sua relação com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump?
Nossa relação com os Estados Unidos completa agora em 2025 200 anos. Então nós temos dois séculos de amizade e parcerias. Temos 4 mil empresas americanas no Brasil prosperando, crescendo, empregando pessoas, gerando renda, tendo lucratividade. Então é uma parceria muito importante. Nós queremos aperfeiçoar isso e até ampliar essas possibilidades. Claro que os EUA têm um têm um problema de déficit na balança comercial que nós reconhecemos. O Brasil tem superávit na sua balança comercial com o mundo: nós exportamos mais do que importamos. Agora, com os EUA, eles é que têm superávit conosco. E dos dez produtos que nós mais exportamos deles, em oito, a alíquota de importação é zero. Então o Brasil não é problema para os EUA. Por isso fomos incluídos na tarifa menor, mas não achamos justo isso e vamos trabalhar para melhorar a situação.
No Nordeste há uma grande preocupação por parte do setor de etanol. Como fica a situação?
Quanto ao etanol, primeiro, nós somos os maiores produtores do mundo de etanol e açúcar. E o nosso etanol tem menor pegada de carbono, porque nós utilizamos energia renovável, eólica, solar e muita biomassa. Os EUA, que cobravam 2,5% na alíquota de importação, passaram para 12,5%. Agora, se formos pegar o açúcar que nós exportamos para os EUA é 90% a alíquota de importação. Então temos de olhar o conjunto, porque quando olhamos o conjunto a nossa tarifa média de entrada de produtos dos EUA no Brasil é 2,73%. É baixa. O Brasil não é problema. Mas nessa questão do etanol, temos de analisar sempre etanol e açúcar. Não é uma coisa separada da outra.
Continua a tendência de crescimento do país no setor, então?
O Brasil é um exemplo para o mundo de energia limpa. Quem tem 27,5% de etanol na gasolina? Além de nós, ninguém tem no mundo. Nós limpamos a gasolina, o combustível fóssil. Hoje, 90% da nossa frota é de motor flex. Em São Paulo, por exemplo, todo mundo põe álcool. Então somos um exemplo de desfossilização, de ajuda ao meio ambiente nesse aspecto. E podemos, com os EUA e a Índia, ter condições de mudar o querosene de aviões, que é muito poluente, pelo Combustível Sustentável de Aviação (SAF) gradualmente. Quem pode produzir ou o óleo vegetal ou o etanol para termos o SAF são esses três países. Então temos de trabalhar muito.
O senhor e o ministro Fernando Haddad (da Fazenda) têm comandado a economia do Brasil. O que vocês dois têm alinhado juntos? A gente percebe que há muita coisa na economia que está dando certo, mas que não tem repercutido na popularidade do presidente Lula e nem no governo. Por que isso está acontecendo?
Primeiro, em relação ao Fernando Haddad, eu era governador de São Paulo e ele prefeito da capital paulista, e nós, apesar de adversários, de disputarmos as eleições, sempre trabalhamos juntos e tivemos um bom relacionamento. Temos um fato bom e muito importante que vai ajudar no comércio exterior brasileiro que é a reforma tributária. A reforma acaba com o chamado crédito tributário, então ela vai desonerar totalmente o investimento e desonerar totalmente a exportação. Há um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) que mostra que, em 15 anos depois da vigência total da reforma, poderão ser aumentados em 14% os investimentos no Brasil e em 17% as exportações.
E quanto às pesquisas de popularidade que não repercutem essas iniciativas?
Quanto às pesquisas, nós estamos no meio do mandato. E tivemos no final do ano passado e começo deste ano dois fatos que impactam a inflação, especialmente a de alimentos. Primeiro o clima, que leva à queda da safra e aumenta o preço dos produtos. Em segundo lugar, o dólar, que impacta o preço de produção. Duas boas notícias são que este ano a expectativa do clima é muito boa e prevemos uma safra recorde, o que reduzirá o preço dos alimentos. A outra é que o dólar está caindo, o que também ajuda a reduzir a inflação e o preço da cesta de alimentos. E, em terceiro lugar, nós zeramos o imposto de importação de dez produtos, a pedido do presidente Lula. Tanto que as pessoas já poderão perceber que em muitos produtos o preço no supermercado já está caindo.
Em relação à questão do Pix, que contribuiu muito para a queda de popularidade do governo, aquilo não foi um atropelo?
Sim, inclusive foi uma coisa injusta, porque a medida que a Receita Federal estava tomando não era para aumentar imposto e nem criar tributo nenhum. Eram apenas instrumentos para acompanhamento e fiscalização que já existem, tanto é que acabou sendo anulado o ato. Mas você tem hoje um fato que é a rapidez da comunicação. Por isso precisamos ficar sempre atentos à questão da comunicação, prestar contas constantemente, ter absoluta transparência e dizer sempre a verdade para a população. Mário Covas costumava dizer “o povo não erra”.
Falando em Mário Covas, no enterro dele um senhor muito emocionado disse aos jornalistas: prestem atenção a esse homem que vai substituir o Covas, esse aí vai ser um grande brasileiro. E o senhor foi quatro vezes governador de São Paulo e agora está aí como vice-presidente da República. A previsão se confirmou, não é?
Eu fui copiloto de um grande comandante. O Mário Covas tinha a objetividade do engenheiro como técnico, era rigoroso com a questão fiscal e de outro lado tinha uma enorme sensibilidade social.
Tiago Gomes/Gazeta News: O partido do senhor tem nos seus quadros figuras importantes que possuem projeção nacional, como o prefeito de Recife, João Campos. Como o PSB vai se encaixar nas eleições de 2026? E o senhor? Já se prepara para uma disputa majoritária, deseja continuar na chapa de Lula ou quer voltar para São Paulo para ser candidato a governador?
Em relação a João Campos, fui governador no mesmo período do pai dele, Eduardo Campos, que era uma figura cativante, bom gestor e bom governador. E João Campos herdou do pai, e também da mãe, Renata, essa vocação para a vida pública. Eu sempre estimulei os jovens para participarem desde cedo da política. Então quando vemos um jovem, engenheiro, que se elegeu deputado federal extremamente jovem, se elege prefeito da capital e faz um mandato reconhecido, sabemos que ele tem uma avenida pela frente, está fazendo um bom trabalho. Por isso, é um nome natural para alçar cargos maiores. Quem é prefeito de capital já é candidato a governador naturalmente. Quem foi reeleito, está em segundo mandato, mais ainda. E quem foi reeleito com quase 80% dos votos, mais ainda. Mas tudo tem seu tempo. Isso é mais na frente.
O senhor tem projeto de voltar a ser governador de São Paulo?
Eu fui governador quatro vezes, tentei duas vezes ser presidente da República. Esse nosso país é apaixonante, é o quinto maior país do mundo em expansão territorial, com reservas naturais diversas, agricultura e indústria muito competitivas, está entre as dez maiores economias do mundo. Eu conheço bem o Brasil. Estou muito feliz trabalhando ao lado do presidente Lula, colaborando no que posso e à frente do Ministério da Indústria e Comércio. Quem no ano passado empurrou o Produto Interno Bruto (PIB) para 3,4% foi a indústria de transformação, que cresceu 3,8%, e está fazendo a diferença, inclusive em Pernambuco.
Heron Cid/Rede Mais: Na Paraíba o seu partido, PSB,se debruça entre lançar o governador João Azevedo para disputar o Senado e, também, entre uma nova candidatura a governador. Que olhar o PSB nacional tem para essa questão específica? Olhando para o cenário macro, qual é a prioridade do PSB neste momento: ampliar o número de parlamentares no Congresso Nacional ou manter o controle de estados como a Paraíba?
Em cada estado, a direção regional trabalha com suas características e singularidades. O João Azevedo é um belíssimo governador, está fazendo um ótimo trabalho. Reeleito não pode mais ser candidato, se for candidato ao Senado é uma candidatura natural e falarmos em sua sucessão ainda é cedo. Se falarmos agora em sucessão, vamos encurtar o governo. Caberá a Azevedo buscar o caminho com a sua sucessão. Aliás, temos três bons governadores do PSB. O João Azevedo, na Paraíba; o Renato Casagrande, no Espírito Santo; e o Carlos Brandão, no Maranhão. São três governadores com bom trabalho em benefício dos seus estados.
Dizem que o senhor tem uma característica muito peculiar de relaxar: quando chega no seu sítio em Pindamonhangaba (SP) pega o arado e vai arar a terra. É verdade isso?
Eu sempre morei na zona rural lá e não tenho casa na cidade, tenho sítio. Então quando eu vou para Pinda, o segredo da enxada é estar bem amolada. Então começo às 6h, vou até as 10h30 mais ou menos e vou limpando o pasto. Depois de algumas horas você fica pingando (de suor). Aí eu deixo a enxada na porteira e fico no bar. Dia desses eu estava lá tomando uma pinga, chegou um pessoal bem arrumado passando para um casamento e quis tirar retrato. Eu expliquei, olha, estou assim, todo suado, porque estava com a enxada. Um deles virou para mim e disse “doutor, nós conhecemos bem isso, é pouca enxada e muito bar” (rindo).
Filipe Clisman/A Notícia do Ceará: No nosso estado o PSB se tornou o principal partido das bases desse arco de alianças que governa o Ceará e isso é visto como um fator muito positivo, já que existe essa parceria entre o PSB e o PT. Queria saber se essa parceria pode ser vista nacionalmente em 2026. O senhor integrará a chapa com Lula outra vez, como candidato a vice-presidente no ano que vem?
Quero destacar muito a liderança do ex-governador e senador Cid Gomes no Ceará e sei que o PSB cresceu bastante no estado. Sobre o quadro nacional, é natural a candidatura do presidente Lula. Ele é o único brasileiro que é presidente pela terceira vez, então o candidato natural é o presidente Lula, que tem experiência, tem liderança. Se você for olhar nas pesquisas, mesmo nas que aparecem citadas aqui, ele continua como favorito. Agora nós devemos ver isso com humildade. O governo pode melhorar muito com experiência, com novas medidas, com o controle da inflação. Mas o governo trabalhou e trabalhou rápido. A inflação é importantíssima, não é algo socialmente neutro, então é importantíssimo que seja controlada e evitada. E acredito que todas as medidas para isso estão sendo tomadas.
No Congresso há muitas reclamações de que Lula, ao contrário dos governos anteriores, não está fazendo política. Tem passado o fim de semana com a família. Antes se dizia que a comunicação não estava bem, mas mudou o ministro da Secom e o governo não está sendo bem avaliado. A que o senhor atribui isso?
Você se referiu ao Congresso. Nós temos um vácuo que com o tempo vai ser corrigido, poderia ser mais rapidamente corrigido com a reforma política, que é o excesso de partidos políticos. Então essa fragmentação partidária muito grande, quase 30 partidos, dificulta a governabilidade. De Gaulle (ex-presidente francês Charles de Gaulle) dizia: “A França é difícil de ser governada porque tem muitos tipos de queijo e muitos partidos políticos”. Com a cláusula de barreira, de desempenho, isso vai reduzir. Na próxima eleição vamos ter menos partidos, na outra teremos menos ainda. Não é nem partido, temos cinco federações partidárias, porque temos partidos que são simplesmente cartórios. Mas o presidente aprovou tudo no Congresso. Reforma tributária, num período democrático, não é fácil de ser aprovada. Então o governo tem tido sim diálogo. Esse é o caminho, fazer o diálogo. O presidente viajou ao Japão, levou os presidentes da Câmara e do Senado e os ex-presidentes das duas Casas. Então ele tem feito uma aproximação. Mas é natural que aconteçam períodos de divergências em determinados pontos, ninguém precisa pensar igualzinho. O que também é bom, porque a divergência é positiva.
As pessoas costumam dizer que governo bom é aquele em que a economia roda, o dinheiro circula no bolso do povo. Será que nesse governo não está faltando isso? Não se está fazendo a economia girar?
A economia cresceu. Em 2023 cresceu 3,2%. Hoje, quando se cresce 3% isso equivale a 4% no passado. O mundo não vive o seu melhor momento, tivemos duas guerras. No ano passado crescemos 3,4% e tivemos o menor desemprego da série histórica nas últimas duas décadas. E melhorou a massa salarial. Por que se vendeu mais geladeira, fogão, máquina de lavar? Porque as pessoas estão ganhando mais e comprando mais. Agora a inflação e o clima atrapalharam no fim do ano. O governo agiu rápido com as medidas adotadas e estamos esperando que o clima ajude também.
O senhor falou na reeleição de Lula, que ele é candidato natural à reeleição. E Geraldo Alckmin segue como na vice?
Para a vice, você é convidado. Eu fui convidado na eleição anterior, fiquei muito honrado, trabalhamos juntos e fizemos a diferença. Quer dizer, em São Paulo a redução da diferença de 2018 para 2022 foi fundamental para a eleição. E o mais importante: salvamos a democracia. Isso é um fato. A democracia brasileira estava em risco. Eu iniciei minha modesta vida pública como vereador em Pindamonhangaba, ainda estudante de medicina, o vereador não ganhava um centavo. Era uma honra você trabalhar pela sua cidade. Depois fui prefeito seis anos da minha cidade com um objetivo, que era ajudar na redemocratização do Brasil. Tínhamos dois partidos, Arena e MDB e eu fui sempre MDB, até ser um dos fundadores do PSDB. A democracia é o povo que decide, ele é o protagonista. As ditaduras suprimem a liberdade em nome do pão. Não dão o pão que prometeram e nem a liberdade que tomaram. Então nós vamos fortalecer a democracia.
Para completar, que mensagem o senhor tem a enviar para a população, para que as pessoas voltem a acreditar no país, contrariando as pesquisas que a gente está vendo?
Pesquisa é a fotografia de momento. Nós temos o quinto maior país do mundo em extensão territorial, temos 5.570 municípios. Um desses municípios, Altamira, no Pará (PA), é maior do que Portugal. Temos uma miscigenação racial maravilhosa. A mensagem que tenho para passar é de otimismo. Acho que vamos ter um bom ano, com inflação menor, inflação de alimentos menor, indústria e agro crescendo, setor de serviços e comércio crescendo também e a possibilidade de fazermos as diferenças em relação a esses tumultos mundiais.
A entrevista, que Mais Nordeste reproduz, foi concedida dia 6 de abril. O texto foi consolidado por Hylda Cavalcanti. Dadas os constantes idas e vindas do presidente Trump, quando o texto for publicado na Mais Nordeste podem ter ocorrido mudanças que não foi possível incluir na edição.
A entrevista contou com a participação de repórteres de vários veículos de imprensa que fizeram perguntas pelo podcast “Direto de Brasília”, realizado pelo Blog do Magno, do jornalista Magno Martins.
Além do Blog do Magno, o podcast foi realizado em parceria com a Folha de Pernambuco; a Gazeta News, de AL; a Rede Francês de Rádio, de AL; a Rede Mais TV, da PB; e a Rede A Notícia, do CE.

