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Sustentabilidade Fiscal sem voz na Câmara

Claudio Conceição por Claudio Conceição
25 de julho de 2025
em Economia
Sustentabilidade Fiscal sem voz na Câmara

Se você tiver paciência para ouvir deputados discursarem na Câmara, verá que não tem nenhuma preocupação com a sustentabilidade fiscal do país.

Falam que estão preocupados com o povo, que o país não aguenta mais aumento de impostos – referindo-se ao aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), que o governo queria emplacar e que acabou sendo derrubado -, mas, ao mesmo tempo, decidem aumentar o número de deputados, ampliando de 513 para 531 a quantidade de parlamentares. Na votação que ampliou o número, que passa a vigorar a partir das eleições de 2026, nada menos do que 361 parlamentares votaram a favor e, apenas, 36 contrários.

No Senado, 41 votaram a favor e 31 contra. O texto agora vai à sanção do presidente Lula que, com popularidade em queda, e precisando de apoio parlamentar, tem um abacaxi para descascar nas mãos. O projeto é bastante impopular: pesquisa Datafolha do último dia 17 de junho mostrou que 76% dos brasileiros são contra ter mais deputados e apenas 20% a favor.

O custo anual dessas 18 novas cadeiras é da ordem de R$ 64,6 milhões, segundo cálculos da própria Câmara dos Deputados. Só uma comparação: o Brasil com 210 milhões de habitantes terá 531 deputados. Os Estados Unidos com uma população de 340 milhões de pessoas tem 435 parlamentares.

A derrubada da proposta de se aumentar a alíquota do IOF foi uma grande derrota para no governo. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, havia costurado um acordo com os presidente da Câmara e do Senado para a aprovação da proposta que mudou de rumo.

E as relações do governo com o Congresso podem azedar ainda mais. O governo decidiu ir ao STF para reverter a derrubada do aumento da alíquota do IOF. Como os serviços públicos no Brasil são muito ruins- paga-se muito imposto e isso não é revertido à população com transportes públicos de qualidade, segurança, iluminação, entre outros -, aumentar impostos se torna impopular, afetando os índices de popularidade do governo.

Com confusão criada, o ministro Alexandre de Moraes decidiu suspender os decretos do governo e do Congresso na disputa pelo IOF, marcando para o dia 15 desse mês uma audiência de conciliação. A decisão do ministro ocorreu depois que o governo acionou o STF contra a decisão do Congresso que derrubou o decreto de aumento do IOF.

Mas como as contas públicas não fecham e não há nenhum esforço para cortar gastos – veja o caso do aumento do número de deputados -, a esmagadora maioria dos analistas afirma que estamos caminhando para a beira do precipício. Para complicar, com esse quadro a política monetária perde parte de sua eficácia, mesmo com o Banco Central, em sua última reunião, elevando a taxa de juros para 15% ao ano.

A edição de junho do Boletim Macro FGV IBRE mostra que

“de fato, este é o nosso grande conflito: política fiscal vs. política monetária. A ausência de reformas estruturais nos gastos, o aumento de concessão de crédito subsidiado bem como a incerteza sobre a estabilização da dívida pública, gera um conflito os objetivos da autoridade monetária. Os cálculos sinalizam que seria necessário superávits primários de pelo menos 2% do PIB para estabilizar a dívida pública. E para o ano que vem, um ano eleitoral, há o risco de novas manobras para burlar as regras fiscais, além de medidas já anunciadas para estimular o consumo, como o crédito consignado privado e o projeto de lei que aumenta o limite de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês. Neste contexto não devemos observar um recuo mais expressivo da inflação medida pelos núcleos e consequentemente, os juros reais devem permanecer em um patamar muito elevado por um período prolongado”.

É uma encrenca dos diabos.

Leia também: “Novo olhar sobre o crescimento econômico”

Tags: sustentabilidade; economia; deputados; Câmara;
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