O Contraste do Desenvolvimento: IDH Bate Recorde Histórico, mas Violência no Nordeste Segue em Alta
Dois levantamentos divulgados no final de maio escancaram um contraste que atravessa o Brasil. De um lado, o país bateu recorde histórico de desenvolvimento humano. De outro, a violência no Nordeste segue concentrada, desigual e, em alguns estados, em crescimento — mesmo com a taxa nacional de homicídios em queda.
Um Brasil mais desenvolvido, mas ainda desigual
Segundo o Radar Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), o índice nacional saltou de 0,744 em 2012 para 0,805 em 2024 — o maior valor da série histórica, colocando o Brasil na faixa mais alta de classificação mundial.
Mas o representante residente do Pnud, Claudio Providas, fez questão de contextualizar a conquista: os avanços foram significativos, porém distribuídos de forma desigual entre regiões, raças e entre mulheres e homens — um padrão que se repete na maior parte da América Latina e do Caribe.

O que mostra o Atlas da Violência 2026
O Atlas da Violência 2026, publicado pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), registrou 42.590 homicídios no país em 2024 — taxa de 20,1 por 100 mil habitantes, queda de 7,4% frente a 2023. Mas os próprios pesquisadores pedem cautela: parte relevante dessa redução está ligada à piora na qualidade dos dados de saúde, que deixaram de classificar milhares de mortes como homicídio, jogando-as na categoria de mortes violentas com causa indeterminada (MVCI) — que cresceu 23,8% em um único ano.
Considerando essa reclassificação, a queda real entre 2023 e 2024 teria sido de apenas -0,4%.
Nordeste concentra as maiores taxas do país
É aqui que a violência no Nordeste aparece com mais clareza no relatório. Em 2024, 18 unidades da Federação tiveram taxa de homicídios acima da média nacional, e os cinco piores indicadores foram: Amapá (45,7), Bahia (40,9), Pernambuco (37,3), Alagoas (35,9) e Ceará (34,3). Do outro lado do mapa, São Paulo (6,6), Santa Catarina (8,1) e Distrito Federal (10,3) seguem com os menores índices do país.
O recorte mais recente também preocupa: entre 2023 e 2024, apenas Maranhão (+7,6%) e Ceará (+5,2%) tiveram aumento relevante na taxa de homicídios — na contramão da melhora observada no restante do país. E olhando os últimos cinco anos (2019-2024), o quadro é ainda mais contrastante: enquanto o Brasil reduziu sua taxa em 8,6%, o Ceará teve alta de 28%, o Maranhão de 25,9% e o Piauí de 20,5%.
“A geografia da violência letal segue profundamente desigual, com parte importante das unidades da Federação do Norte e do Nordeste ainda concentrando níveis elevados, ao passo que estados do Sul, do Sudeste e o Distrito Federal permanecem com os menores indicadores do país.”
Por trás dos números: golpes digitais e expansão das facções
Enquanto os roubos reportados à polícia caíram pela metade entre 2018 e 2024, os estelionatos — sobretudo os virtuais — multiplicaram mais de cinco vezes, impulsionados pela digitalização bancária, que hoje responde por 81,5% de todas as transações no país. O crime também se reorganizou: o mercado de cocaína representa hoje apenas 10% da receita do crime organizado, atrás de combustíveis, ouro, cigarros, bebidas e crimes virtuais — sinal de que as facções diversificaram e se infiltraram em cadeias produtivas legais e até em administrações públicas.
Feminicídio e violência sexual: estabilidade que preocupa
A taxa de homicídios de mulheres dentro de casa — usada como proxy para feminicídio — segue praticamente estável há uma década, independentemente do cenário econômico do país. Já os dados de violência sexual contra crianças e adolescentes são alarmantes: os registros na faixa de 0 a 4 anos mais que quadruplicaram entre 2014 e 2024, e a estimativa é de que ocorram pelo menos 822 mil estupros por ano no Brasil — dos quais apenas 8,5% chegam ao conhecimento da polícia.
Percepção x realidade
Apesar da melhora estatística no país como um todo, a percepção da população segue na direção oposta: pesquisa BR Latam Pulse Atlas & Bloomberg (fev/2025) mostrou que 73,2% dos brasileiros acreditam que a criminalidade está piorando, contra apenas 11,9% que veem melhora. Um lembrete de que índices criminais e sensação de segurança nem sempre caminham juntos — e de que, para boa parte do Nordeste, os números confirmam o que a população já sente na pele.
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