Uma delegação de alto nível da Cagece, liderada por seu presidente Neuri Freitas, viajou do Ceará ao deserto mais seco do mundo, o Atacama, para conhecer em detalhes os esforços para fornecer água de alta qualidade para seus habitantes. De fato, a usina de dessalinização de Caldera desde janeiro de 2022 conseguiu entregar o produto vital às principais cidades da região do Atacama, incluindo sua capital regional, Copiapó, garantindo sua sustentabilidade e utilizando energia solar e eólica. É um empreendimento de classe mundial, premiado com o Global Water Award 2022 e, mais recentemente, com o Vostock Capital Award 2024.
Isso foi apresentado em reuniões anteriores realizadas em Santiago do Chile com a Acades (organização que reúne empresas de dessalinização no Chile) e pelo Centro de Políticas de Infraestrutura (CPI). Este país sul-americano tem vasta experiência em usinas de dessalinização com 24 em operação e outras 42 a serem construídas, destinadas a garantir o abastecimento de água para consumo humano e atividades produtivas, especialmente mineração. Um país que se prepara para um cenário mundial de escassez de água.
Como resultado da visita técnica à usina de Caldera, a Cagece assinou uma carta de intenções com a empresa operadora Nueva Atacama e a Universidade do Atacama com o objetivo de transferir a experiência chilena para a construção e operação da usina de dessalinização de Fortaleza. Foi especialmente digno de nota que o processo de coleta e descarte de água do mar não altera o sistema marinho adjacente, como tem sido regularmente certificado por uma instituição especializada independente.
Cooperação latino-americana para enfrentar o futuro
Essa visita técnica à usina de dessalinização faz parte de um processo ativo de intercâmbio científico e tecnológico que desde 2018 vem sendo realizado pelo Ceará e pelo governo do Chile, por meio do Ipece e da Funcap. Entrevistas da delegação do Cagece, com a vice-reitora de Pesquisa e Pós-Graduação da Universidade de Atacama, dra. María José Gallardo, e com o governador regional de Atacama, Miguel Vargas, renovaram e deram novas orientações para este esforço de cooperação internacional.
É assim que essa experiência será apresentada na II Conferência Regional das Comissões Parlamentares do Futuro, que será realizada nos dias 26 e 27 de junho de 2025, na sede da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) em Santiago do Chile.
Este importante evento latino-americano reunirá especialistas e líderes parlamentares do continente para analisar tendências e desafios futuros em vários campos, com foco especial na governança antecipatória e na prospectiva legislativa.
Este convite surgiu na sexta-feira, 2 de maio, durante a entrevista desta missão cearense com o secretário executivo adjunto da Cepal, dr. Javier Medina, durante a qual esta alta autoridade do principal centro de pensamento e análise econômica da América Latina conheceu os detalhes de como o Ceará desenvolve diferentes iniciativas públicas de inovação, várias das quais são de grande interesse para o Atacama e o Chile.
Aprender as melhores práticas em políticas públicas
O Chile, um país de alta heterogeneidade territorial (como o Brasil), iniciou recentemente um processo de descentralização que busca permitir que suas regiões aumentem sua autonomia e adotem decisões políticas mais alinhadas com seus próprios desafios e capacidades.
O Atacama, em particular, elaborou uma estratégia de desenvolvimento regional que considera um processo de aprendizagem ativa a partir de experiências internacionais de inovação pública, a fim de aproveitá-las em seu processo de política pública regional. Este é um aspecto fundamental para a Cepal, razão pela qual também convidou o governador do Atacama a participar da conferência.
Para a Cepal (2025), agência das Nações Unidas que estuda o desenvolvimento econômico da América Latina e Caribe, existem três armadilhas que nossos países enfrentam:
• Crescimento econômico baixo, volátil, excludente e insustentável.
• Alta desigualdade e baixa mobilidade e coesão social.
• Baixas capacidades institucionais e governança ineficaz, o que limita sua capacidade de se adaptar e prosperar em um ambiente global em constante mudança.
Países federais como Brasil, Argentina e México, devido à sua própria forma de governo e disponibilidade de recursos, têm vasta experiência de experimentação em políticas regionais (nem todas bem-sucedidas, aliás). Ao contrário do Chile e de outros países unitários, que permaneceram durante séculos executando políticas e programas padronizados definidos a partir do capital nacional, nem sempre adaptados às suas necessidades.
Inovações públicas nordestinas com potencial para serem replicadas
É por isso que o recente processo de descentralização chileno gerou um grande interesse em seus governos regionais para aprender com as boas práticas em políticas públicas em países com nível de desenvolvimento semelhante. E o Brasil, certamente, é um importante campo de inovação em um cenário sempre desafiador.
Algumas inovações do Nordeste têm atraído a atenção no Chile. O primeiro é o Programa Cientista-Chefe (Ceará e Pernambuco), que permite uma contribuição efetiva da academia regional para a gestão pública. Há também um forte interesse na experiência de think tanks governamentais no Nordeste (como o Ipece no Ceará, o Condepe/Fidem em Pernambuco e o Observa/RN no Rio Grande do Norte). E, certamente, as autoridades educacionais chilenas estão observando atentamente o modelo de educação pública no Ceará que alcançou grandes resultados nas últimas décadas.
Para a Cagece, seu processo de internacionalização e troca de experiências é fundamental para melhorar sua atuação em termos de saneamento básico em prol da qualidade de vida dos habitantes do estado. E para que isso seja produtivo, é preciso construir uma governança antecipatória com o conjunto de agentes que fazem parte de seu sistema de stakeholders, uma interação que se baseia em um denso sistema de conhecimento.
A Cepal (2025) postula que o intercâmbio e a cooperação em governança antecipatória entre os países latino-americanos são essenciais para “melhorar a qualidade da legislação, antecipar crises futuras e promover uma cultura política orientada para o longo prazo”.
Como na famosa história em quadrinhos argentina Mafalda, o lema é: “não deixe que o urgente o impeça de cuidar do que é importante”.
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