Como todo mundo sabe, o PIB, que mede as riquezas que são produzidas no país, cresceu 3,4% no ano passado, como mostrou o IBGE. Não chegou a ser uma novidade, pois já se esperava um crescimento dessa magnitude, ou um pouco maior.
Mas a economia começou a desacelerar no quarto trimestre, o que lança dúvidas sobre a capacidade da atividade econômica permanecer robusta este ano. Tudo indica que não.
O primeiro obstáculo são os Estados Unidos, ou melhor, as inconsistências e riscos que Donald Trump, dia sim e outro também, joga mundo afora com suas falas.
Depois de um período de certa euforia com o governo Trump, desde fevereiro o humor dos mercados de ativos americanos experimentou significativa mudança, para pior: bolsas, juros e dólar experimentam trajetória cadente. Essa piora é o resultado de uma combinação de duas características das mudanças de política sendo adotadas por Trump. Uma, a abrangência e a intensidade das mudanças, indo do anúncio das tarifas comerciais para diversos produtos e países à política de imigração mais restritiva, aos cortes de pessoal no governo e aos intensos embates geopolíticos. Outra, o fato de que não parece claro para ninguém exatamente o que se pretende alcançar, com alguns dos objetivos citados por autoridades conflitando com outros. As idas e vindas – por exemplo, na adoção de tarifas – apenas reforçam essa falta de clareza sobre quais os objetivos perseguidos e, consequentemente, o que esperar à frente.
Em abril o presidente Trump impôs tarifas para vários países. O Brasil foi meio poupado, com as exportações brasileiras sendo sobretaxadas em 10%. Outros países foram mais afetados, especialmente a China. Mundo afora houve forte reação contra a decisão de Trump, sob a alegação de que a taxação pode levar a uma guerra comercial que, provavelmente, afetará as cadeias de suprimento globais. No próprio Estados Unidos, já há pressão para que Trump desista de sobretaxar os países. Os produtores de soja, por exemplo, que representam cerca de 0,6% do PIB de lá, já sofrem prejuízos com a China desviando suas compras para o Brasil.
No primeiro trimestre deste ano o PIB dos EUA recuou 0,3%, muito pior do que o mercado esperava. É a primeira queda da economia norte-americana desde 2022 e é resultado direto da guerra comercial aberta por Donald Trump que pediu paciência aos norte-americanos, embora tenha dito que não tem nenhuma responsabilidade pelo resultado. Nota do Escritório de Análise Econômica dos Estados Unidos, diz que “em comparação com o quarto trimestre de 2024, a queda no PIB real refletiu um aumento das importações, uma desaceleração nos gastos do consumidor e uma queda nos gastos do governo”.
Trocando em miúdos: com a perspectiva de uma guerra comercial com a China e com outros países, empresas com sede nos EUA aceleraram as importações para refazer seus estoques e se prepararem para uma piora do cenário global. Essa corrida global é o que gerou a queda do PIB, conforme a nota.
Mas uma parte da decisão não durou muito. Trump voltou atrás, suspendendo ou cancelando a taxação de alguns produtos e países sobretaxados. Ao escrever este texto, dadas as inconsistências do presidente norte-americano, muita coisa pode mudar quando de sua publicação.
Mas isso tem elevado significativamente a incerteza sobre o rumo da economia americana: por exemplo, em relação à atividade, à inflação e à política monetária.
Mas não é só a incerteza e queda da confiança de empresários norte-americanos, antes eufóricos com a vitória de Trump, que tornam o cenário nebuloso para o Brasil e o resto do mundo.
É sempre bom olhar com cautela balões de ensaio que são lançados, ou pelo governo, ou pelo mercado, sobre os rumos da atividade econômica. Há muitos interesses, e dinheiro, envolvidos. Mas não dá para negar que o filme de 2025 será bem pior do que o de 2024.
Senão, vejamos.
No ano passado, o PIB cresceu totalmente impulsionado pela demanda interna, diferente do que ocorreu em 2023 quando a demanda externa teve importante papel. No ano passado, houve uma forte retomada da demanda privada, com crescimento do consumo das famílias que avançou quase 5% e os investimentos chegando perto dos 7%.
Este ano, a composição deve ser outra: haverá uma forte retomada da agropecuária e da indústria extrativa. É sempre bom lembrar que a expansão da agropecuária puxa outros setores como a agroindústria e o agro serviços. Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea-Esalq/USP), o PIB do agronegócio deve representar em torno de 25% do PIB brasileiro. E os demais setores que dependem da demanda, como bens duráveis, bens de capital, construção civil e demais serviços que cresceram muito no ano passado vão manter o mesmo fôlego?
Deve haver uma desaceleração relevante desses segmentos. Mas os números, hoje, apontam mais para um baixo crescimento do que para uma recessão. Mesmo a economia esfriando, a massa ampliada de rendimentos (salários e benefícios sociais) pode crescer em torno de 4%, em termos reais, este ano. Estima-se que no ano passado o crescimento foi ligeiramente abaixo de 7%, real. Previsões do Boletim Macro FGV IBRE apontam para um crescimento do PIB de 1,9% este ano.
Os resultados de confiança obtidos em abril de 2025 pelas Sondagens do FGV IBRE confirmam a reversão de tendência dos índices, tanto de empresas quanto de consumidores. A piora recente, com mais intensidade nos consumidores, sugere que o ritmo de 2024 ficou para trás e indica pessimismo com o ritmo dos próximos meses. A manutenção do cenário macroeconômico desafiador deve manter a trajetória de desaceleração da confiança.
Mas há muitas outras pedras pelo caminho. Só citando algumas delas.
A alta dos juros joga mais gasolina na fogueira. Se em boa parte do ano passado a taxa básica de juros esteve abaixo dos 11% – mesmo assim elevada –, a partir de novembro ela começou a subir. Hoje está em 14,25%, com sinalização de voltar a subir, mas em patamares menores a partir da próxima reunião do Copom. Muita gente acha que vai chegar aos 15%. Juros mais altos tornam o crédito mais caro e inibem o consumo.
Outro problema: a inflação, onde a grande questão é a sua inércia: quando sobe fica difícil voltar a puxá-la para baixo. E o pior disso é a alta dos alimentos, que pesa direto no bolso do consumidor e é componente explosivo para aumentar a rejeição de qualquer político.
É premente a necessidade de controlar a inflação, com a política monetária seguindo em seu ciclo de alta da taxa de juros, enquanto o governo segue gastando mais do que arrecada. É bastante incerto como se resolverá essa dissonância entre as políticas monetária e fiscal, conforme as eleições de 2026 se aproximem, em um contexto de dívida pública já bastante elevada, como proporção do PIB, o que levanta sérias preocupações sobre a sustentabilidade fiscal.
O menor crescimento econômico e a taxa de juros bem mais elevada vão contribuir para aumentar o déficit nominal e tornar a dinâmica da dívida pública mais insustentável. Estima-se que a dívida bruta atinja 80% do PIB este ano e 84% no ano que vem. É importante destacar que tanto a dívida bruta quanto a dívida líquida devem acelerar: espera-se que esta supere 70% do PIB em 2026.
De acordo com estudo recente do Itaú-BBA3 e previsões do FMI, a expectativa é um aumento da diferença entre a dívida do Brasil e aquela dos demais países emergentes e da OCDE. Adicionalmente, a trajetória também é divergente em relação àquela de outros países de rating semelhante, de acordo com a metodologia do S&P. Ou seja, tudo indica que ficaremos a uma distância ainda maior da retomada do grau de investimento, que seria um grande benefício para o Brasil.
O nó da questão é que os alimentos têm subido muito, roubando o poder de compra, especialmente das classes de menor renda. No ano passado, enquanto a inflação oficial medida pelo IPCA, do IBGE, foi de 4,83%, os alimentos subiram 7,69%. Para este ano, as projeções do Boletim Macro são de uma inflação na casa dos 5,7% e de alimentos de 8%. Mas tem gente com números que se aproximam de 9% a 10%.
Outro problema futuro. O mercado de trabalho fechou 2024 com a menor taxa de desemprego da série. Mas se olharmos os dados com mais atenção, percebe-se que houve um gradativo enfraquecimento, especialmente a partir do segundo semestre, da criação de novos postos de trabalho. Em outubro e novembro, houve queda na criação de novas vagas. Em dezembro a coisa piorou, com o fechamento de mais de 500 mil postos de trabalho com carteira assinada, pior mês desde 2020, quando da pandemia da Covid-19. Pegando a PNAD Contínua, no trimestre encerrado em dezembro a taxa de desemprego subiu 6,2%, em comparação ao trimestre fechado em outubro: a primeira alta depois de oito trimestres seguidos de queda. Sinaliza que o desemprego pode voltar a subir.
Um sinal de alerta, que alguns analistas já estão usando para mostrar, junto com outros indicadores, que a economia pode desacelerar bem no segundo semestre. A guerra vai reduzir o crescimento mundial e consequentemente impactar os preços de commodities e consequentemente a economia brasileira. Não somos uma ilha.
Mas fica a pergunta. Será que o governo Lula vai deixar a economia sucumbir, já que em 2026 teremos eleições presidenciais? Acho improvável. Como tenho dito, vai tentar empurrar com a barriga a questão fiscal, fazendo alguns ajustes aqui e acolá. O próprio presidente já disse que “não tem outra medida fiscal (…), e que, embora a questão fiscal seja muito importante para o país, o governo só vai discutir novas medidas que vão nesse sentido se houver a necessidade de fazer algum ajuste”. O que não foi bem recebido pelo mercado.
O orçamento de 2026 que foi enviado para o Congresso fixa um superávit fiscal de 0,25% do PIB, mas pode ter descontos e com isso o resultado final deve ser de déficit. E para 2027, o resultado é ainda mais sombrio, pois o governo vai ter que incluir todos os gastos com precatórios no orçamento público e com isso não vai sobrar dinheiro para as outras políticas públicas.
Tornado réu como um dos responsáveis por tentativa de golpe de Estado, o ex-presidente Bolsonaro teve enfraquecida sua posição política, aumentando a pressão para que indique alguém que possa concorrer em seu lugar. O quadro piorou com sua recente internação e complexa cirurgia para retirar aderências que estavam causando uma obstrução intestinal. em uma cirurgia que durou quase 12 horas. O nome mais comentado é do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.
Pesquisa Datafolha, divulgada no dia 5 de abril pelo jornal Folha de S.Paulo, mostrou um respiro para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em meio à crise de popularidade que atinge o governo. Após subir de 34% para 41% entre dezembro de 2024 e fevereiro de 2025, a taxa de avaliação negativa de Lula recuou em abril para 38%. Os que acham o governo positivo foram 29% (eram 24% em fevereiro), mas abaixo dos 35% de dezembro de 2024 (em fevereiro essa taxa era de 32% e 29% em dezembro).
Ou seja: a campanha 2026 já começou. E com ela, a ampliação dos gastos, seguindo o mantra de que “Gasto é vida”, mas não tem dinheiro.
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