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O Brasil macunaímico

Arnaldo Santos por Arnaldo Santos
13 de maio de 2025
em Cultura
O Brasil macunaímico

A vida de uma nação é um só poema cuja unidade as estrofes não perturbam, estas ora jubilosas/às vezes sombrias, do hino e da elegia. (José Maria Latino Coelho, escritor lusitano. Lisboa, 29/11/1825; Sintra, 29/8/1891)

A índole pacifista e a alegria de seu povo, jungidas à exuberante beleza e leve sensualidade de suas mulheres, fazem príncipes, reis e astros pop, da música, artistas do cinema internacional e gente do mundo inteiro se encantarem por essas terras, de verdes mares, nem tão bravios.

Por essas bandas dos trópicos, o sol é mais dourado, brilhando todos os dias, o ano inteiro, tornando o seu céu ainda mais azul.

Dia e noite, os ventos que sopram e balançam as palhas dos coqueiros à beira-mar, por suas compridas superfícies de praia, também embalam as redes, onde descansam os corpos extenuados, por extensas jornadas de trabalho, do seu povo honesto, dos preguiçosos políticos, e os negros e longos cabelos, que adornam os rostos de suas lindas mulheres.

Nem tudo, entretanto, é só beleza e encantamento. Todas essas características de riquezas naturais, cultura de sua gente, e tantos donaires não nos livraram daquela suscetível de ser considerada grande catástrofe natural, já que, ao dilatado da história, é reiteradamente perpetrada pela ação antrópica – as mãos, os pés e as cabeças humanas, não raras vezes desleixadas de bons propósitos.

O moto a que fazemos referência situa-se na ação delituosa de alguns dos seus componentes públicos, mancomunados com uma parte da elite econômica, que fazem da política um meio para encher as burras e dilapidar o país.

Por via de conchavos com o setor privado, concedem bilhões em subsídios para setores que já não se justificam, e isenções fiscais para aqueles que deviam pagar mais. Com o intento de fruir desse ruinoso desideratum, recorrem aos mais inventivos meios e práticas de corrupção, na grande feira de negócios escusos chamado Congresso Nacional.

No âmbito das suas intenções, alguns desses sabidos, ladinos como são, mentem, trapaceiam, traem e descumprem acordos, firmados, inclusive, entre os comparsas. Assim procedem em nome da governabilidade, ou de uma ação mal disfarçada de uma falsa oposição, que se conhece pela alcunha de Centrão, onde coabitam sanguessugas pseudoevangélicos, a maioria dos quais sequer abriu alguma vez o Livro Santo (Oh, Deus!), ruralistas, bancada da bala, e outros, com uma característica comum, conformada no bolsonarismo-raiz!

Nesse balcão de negócios recônditos, sobram vendidos e adquiridos os mais diversificados e interditos produtos. São medidas provisórias, para beneficiar os setores já referidos, bancos e grandes empresas da construção civil, até a aprovação de leis criando bilhões em emendas secretas individuais, de liderança e de bancadas, além de aumento dos fundos partidários, somados às isenções de impostos a vários outros privilegiados setores da economia, que, historicamente, mantiveram – e ainda conservam – relações nem um pouco republicanas com os governos nas três esferas.

Conforme é de sabença geral, o que as nossas elites política e econômica, por tradição malsã, menos fazem, é trabalhar pelo desenvolvimento do país, como reverberam, embora seja esse o discurso, midiatizado, principalmente, pelos meios de propagação coletiva marrons e amarelos – o segundo procedente do jornalismo de segunda classe do Tio Sam. Os vergonhosos níveis de pobreza e desigualdades sociais são indicativos incontestáveis dessa histórica e doída realidade, especialmente quando examinamos a nossa tragédia na perspectiva da pobreza do saber, com os nossos sofríveis níveis de educação.

Reproduzindo Macunaíma

A propósito, quando o escritor Mário de Andrade, um dos precursores do Movimento Modernista no Brasil (1922), lançou o livro Macunaíma (1928), um dos mais importantes romances na sua época, o fez em uma bem-sucedida elaboração e valorização da cultura nacional.

Este singular produto da ordem escritural brasileira procede a um corte temporal, no estilo até então adotado por todos os grandes escritores do período, batizando no lúcido Jordão literário nacional um momento deveras eminente. Com efeito, lança estilo distinto na leitura clássica vernácula, revelando-se a diversidade da nossa riqueza multicultural.

Ao reunir as várias características da cultura patrial, com suporte na linguagem, em suas variadas modalidades de se expressar, no opulento e original vocabulário regional – as lendas, o folclore e os mitos constantes do imaginário coletivo – o romance lança renovada perspectiva sobre tudo o que estava acontecendo naquele momento, na literatura, e nas artes em geral, o que contribui, substantivamente, para reafirmação da identidade cultural do Brasil, com uma bem maquinada síntese do caráter dos seus domiciliados.

O que talvez Mário Raul de Morais Andrade não tenha imaginado é que, passado pouco mais de um século da sua publicação, o personagem Macunaíma viesse consubstanciar de maneira tão própria, de expressividade semelhantemente original, sobre o que são, como agem, de que maneira pensam e o que fazem os políticos brasileiros, em uma versão marioandradiana atualizada, dos vários macunaímas que povoam o universo macrocósmico da política e da economia.

Não demora repetir a ideia, de vez em quando expressa por nós, de que a identificação entre a essência da personagem Macunaíma com o formato, os princípios e a prática, política, desde sempre, no Brasil, é de tal grandeza, motivo pelo qual nem é preciso o leitor se postar muito atento para logo divisar as variadas semelhanças.

“Macunaíma, herói de nossa gente, nasceu no fundo do mato virgem.” Nossos políticos, banqueiros, diretores de estatais, e de grandes empresas privadas, mormente no setor da construção pesada, nasceram no fundo das matas da região amazônica, na Caatinga do Nordeste, no Cerrado do Brasil Central, do baixo, médio e alto Jequitinhonha mineiro, dos pampas gaúchos e dos planaltos Atlânticos e Meridional da Região Sudeste…

A “índia tapanhumas” pariu Macunaíma, em meio ao “murmurejo” do “Uraricoera”. O Brasil, essa grande aldeia, descoberta por Cabral (não é pecado lembrar) quando por essas terras ancorou e desembarcou em 1500, expeliu um bando de políticos de espírito e índole “macunaímicos”, que mais parecem formigas do tipo saúvas vermelhas, atta sexdens – aquelas cujas cabeças Macunaíma decepava, a modo de seu entretimento preferido na garridice, sob o engenho marioandradino.

Conforme se conhece, as formigas têm grande habilidade para trabalhar em equipe e realizar operações, que, agindo sozinhas, seriam impossíveis. Comparativamente, nessa tarefa, os políticos também são imbatíveis. Alguém, no entanto, haverá, decerto, de reclamar:

– Respeita as formigas, rapaz!

Quando cuidam de defender os próprios interesses, formam pequenos ou grandes grupos de pressão, a depender do tamanho da predação que pretendem executar.

Seja para votar e aprovar alterações na legislação que a eles beneficiem diretamente, como projetos de leis, medidas provisórias, instalação de CPMIs, que muita vez funcionam, apenas, como instrumento de chantagem, dentro e fora do governo, ou principalmente, quando o que está em jogo é a aprovação de suas emendas parlamentares, ou, ainda, para negociar com o setor privado, vê-se, com a máxima clareza, o tamanho do “pixuleco”.

Individualmente, como já observaram os entomologistas, as formigas são escravas dos seus instintos e estímulos externos.

Escravos da corrupção

Assim como as saúvas, é factível observar, e isso já está comprovado pelo Ministério Público, Polícia Federal e jornalistas, que alguns políticos são escravos do seu instinto corrupto, sem nenhum escrúpulo e desprovidos de qualquer vestígio de caráter.

Os bilhões de dólares são o estímulo externo de que precisam para suas práticas, nada republicanas.

Uma centena de políticos e empresários, em conluio com alguns diretores e servidores de empresas estatais, agindo como se fossem “saúvas” com cérebros – e derribados – em tempos recentes, quase devoraram a Petrobras, o BNDES, o Banco do Brasil, a Caixa Econômica, e até a Receita Federal, como ficou demostrado na operação Zelotes, instalada pela Polícia Federal em março do ano de 2015.

No episódio que, há exatos dez anos, originou a manobra referida, os envolvidos atuaram como fazem as térmites e saúvas, trabalhando em rede e dividindo as tarefas. Rapidamente, elas atacam, devoram e transportam com a máxima eficiência uma significativa área de folhagem, com o objetivo de alimentar a numerosa família no interior do formigueiro. Os políticos e alguns empresários, para alimentar suas ambições e saciar a ganância sem limites, exprimem-se tão ou mais eficientes do que estes formicídeos.

Consoante informação de teor científico, “as formigas são animais pertencentes à família formicidae, o grupo mais numeroso dos insetos”. Assim também é considerada a família dos corruptus, ou fures, do latim, que significa “quebrado em pedaços”.

“O verbo corromper significa tornar pútrido.” No Brasil, a família dos que se tornaram pútridos parece ser tão numerosa quanto a das formigas e, ao contrário do que ocorre com o restante da população – trabalhadora, e honesta – que está envelhecendo, os corruptos estão se desenvolvendo, muito rapidamente, e são cada vez mais jovens.

Os bancos suíços e de outros paraísos fiscais foram até bem pouco tempo os grandes formigueiros desses corruptos que compõem a trama político-econômica. Foi para esses que, durante muito tempo, impunemente, eles drenaram os bilhões e bilhões de dólares da corrupção, que praticaram deste lado de cá do Equador.

De tão abarrotados de dinheiro da corrupção durante décadas, desde que passaram a ser monitorados pela Justiça, esses paraísos fiscais já não aceitam transferências, depósitos ou investimentos, de qualquer natureza, oriundos dos integrantes da família dos pútridos.

A diferença substancial – e isto deve ser registrado – é que as formigas realizam um trabalho coletivo, para alimentar toda a família, mas, entrementes, esse grupo composto por bípedes formigões de índole macunaímica superam em muito o personagem do modernismo literário.

Macunaíma, à noite, quando ia dormir, subia ao jirau e, quando urinava, molhava a cabeça da mãe, que dormia embaixo da sua rede.

Os políticos – em conluio com os conhecidos integrantes do mandarinato econômico, que formaram essa rede predatória internacional de corrupção, com atuação articulada, há décadas, dentro e fora do governo – evacuam, em número um e número dois, na cabeça de todo o povo brasileiro, dia e noite, o ano inteiro. Como o conjunto da população é formado por gente ordeira, trabalhadora e honesta, desse ponto de vista, a sociedade não merece os políticos que a representam.

Felizmente a firme atuação dos órgãos de controle do Estado, especialmente do Poder Judiciário, com supedâneo no exercício seguro e constitucional do STF, está em curso a formulação de renovados paradigmas éticos no país.

Como há as mencionadas semelhanças do comportamento geral de parte da elite política brasileira, achegando-se cada vez mais do nosso herói sem caráter, não se há de esquecer o fato de que Macunaíma, ainda na meninice, gostava de tibungar no rio, enquanto tomava banho, nu, junto com a família, tentando pegar guaiamuns.

Como todo menino, gostava de brincar, ou de ficar sem fazer nada, só na preguiça. Nessa trama, as personagens, também, não têm lá muito gosto pelo trabalho. Mostram-se tão, ou mais preguiçosos, do que o “herói” de Mário de Andrade.

Parcela da elite política, e do empresariado nacional, envolvida na trama dessa cultura malsadia do rio em que Macunaíma se banhava, prefere se lavar em banheiras de espuma, e ofurô, regados a muito champanhe, em companhia de belas e jovens mulheres, de preferência, em luxuosos hotéis da Europa, da Ásia opulenta e dos Estados Unidos.

Não é só isso, pois aulas de tênis e outros esportes ainda mais sofisticados, para si, e suas famílias, em academias europeias, bancadas com os bilhões de dólares desviados do Brasil, são preferências no âmbito do sofisticado estilo de vida da maioria deles.

Enquanto isso, o povo fica pelado, e seus jovens atletas, na maioria das ocasiões, não têm sequer um par de tênis para treinar, em meio aos canaviais e estradas de chão batido, transformadas em pistas de atletismo. No ex-país do futebol, que sediou a Copa do Mundo em 2014 – quando perdeu, em casa, para a Alemanha por 7 x 1 e há poucos dias levou um baile da Argentina, surrado por 4 x 1 – e as Olimpíadas em 2016, é assim que se cuida dos atletas.

Mesmo identificando todas essas semelhanças, nos desculpamos junto ao distinto público leitor, ao tempo em que pedimos permissão ao genial Mário de Andrade para que façamos essa que talvez seja passível de ser considerada uma infame comparação, sem, no entanto, pretender, sob qualquer hipótese, agredir ou desfigurar a efígie mítica e de múltiplas representações da personagem Macunaíma.

Com essa maneira de agir e de ser do mandarinato brasileiro, seria até previsível imaginar que as personagens componentes da representação da política e da economia brasileiras, nessa tramoia, tivessem um perfil de “heróis”, cuja característica de maior relevo fosse a ausência total de caráter (em Macunaíma o caráter era apenas vacilante), já que, na tradição enfermiça da política, não se percebe haver a virtu maquiaveliana, porquanto a virtude não é o elemento fundante da política, ainda que o discurso seja continuadamente virtuoso.

Racionalmente, recorremos ao produtor da Pauliceia desvairada, tomando por empréstimo o seu Macunaíma, porque, como preguiçoso, mentiroso, trapaceiro, sem palavra e traidor, sintetiza, como nenhum outro, as figuras dos milhares de políticos embusteiros e outros oportunistas, espalhados (porque não suportam ficar amontoados) pelo país inteiro.

Esses, historicamente, sempre se locupletaram das benesses estatais, haja vista o fato de que fragmento bem significativo da nossa elite política e econômica é composto de milhares de macunaímas, com os quais os leitores até já têm alguma familiaridade, pois, no dia a dia, conservam com eles algum contato, ao assistirem aos noticiários reproduzidos pela imprensa sem cor (isenta) e marrom e amarela, no exercício diário de suas peraltices.

Imagem de Grande Otelo em Macunaíma (1969), de Joaquim Pedro de Andrade – divulgação.

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