Quando o assunto é fé e tradição, o Nordeste brasileiro é destaque em diversas manifestações. Entre os muitos mistérios do sertão, a tradição dos penitentes juazeirenses chama a atenção da população baiana há, pelo menos, 124 anos. É no período da quaresma – momento de importante destaque no calendário litúrgico do catolicismo e que este ano aconteceu do dia 5 de março a 17 de abril – que a penitência dos religiosos acontece.
Todas as noites de segunda, quarta e sexta-feira, homens e mulheres de diferentes idades percorrem as ruas de Juazeiro, no norte da Bahia, cobertos da cabeça aos pés por vestes brancas – as chamadas mortalhas – o que confere à cena um ar ainda mais misterioso. Movidos pela fé, eles saem com o propósito de orar pelos mortos e interceder pelas almas, em um ritual marcado por lamentos, pela devoção e pela força.
Historiadores e religiosos da região afirmam que a tradição dos penitentes chegou a Juazeiro por volta de 1901, trazida por missionários carmelitas e capuchinhos. Desde então, a prática se enraizou como uma tradição familiar, transmitida de geração em geração. Ao longo do tempo, o município chegou a abrigar cinco grupos distintos de penitentes, mas o processo de continuidade tem enfrentado desafios, especialmente no que diz respeito à adesão das novas gerações. Dos cinco grupos de penitentes que existiram em Juazeiro ao longo do tempo, apenas dois – os “disciplinadores” e as “alimentadeiras de almas” – resistiam nos últimos anos.
Segundo Ermerson Oliveira, conhecido como Pai Bimbo, integrante do cordão das “alimentadeiras de almas”, o principal desafio enfrentado pela tradição é manter o engajamento da comunidade. Para ele, a continuidade do ritual depende diretamente da participação ativa da população, especialmente dos mais jovens, cuja adesão tem diminuído ao longo dos anos. “Os jovens hoje em dia não têm interesse em dar continuidade à tradição dos seus antepassados. A maioria dos grupos era composta por pessoas idosas que foram morrendo e com isso corremos um sério risco de perder uma tradição centenária. Tenho o interesse de dar continuidade à essa prática e, quem sabe, criar o meu cordão em 2026”, diz.
Apesar de misteriosa, a tradição conta com regras claras entre os integrantes do grupo “alimentadeiras de almas”. A começar pela organização do “cordão”, nome que se dá à fila indiana de penitentes. Ocupando a primeira posição na fila vem o “baterista”, responsável por carregar a cruz. Em segundo lugar o “matraqueiro”, responsável por bater a matraca durante todo o percurso de penitência, anunciando que os trabalhos da espiritualidade estão abertos. Em sequência vêm os demais integrantes.
A rota de penitência também segue um padrão simbólico. O percurso é dividido em sete pontos, representando os sete estágios da Paixão de Cristo. Ao longo do trajeto, o grupo visita sete cruzeiros em diferentes pontos da cidade – locais marcados por cruzes que simbolizam a redenção de Jesus Cristo. A jornada, que muitas vezes entra madrugada adentro, se encerra no cemitério da cidade, em um gesto final de reflexão e espiritualidade.
Ainda mais misterioso é o grupo de penitentes denominado “disciplinadores”. De acordo com o antropólogo Roberto Lima, esse grupo possui um número menor de integrantes e é consideravelmente mais reservado. Segundo o antropólogo, ao contrário das “alimentadeiras de almas”, os “disciplinadores” realizam rituais marcados pela autoflagelação. Vestem-se com túnicas brancas chamadas anáguas, amarradas na cintura, e cobrem a cabeça com um pano, deixando as costas expostas para facilitar a prática. Durante o percurso, utilizam chicotes feitos de couro ou elásticos com pontas metálicas, projetados para causar cortes na pele. O ato, carregado de simbolismo religioso, é entendido como forma de penitência e entrega espiritual, evocando o sofrimento de Cristo como caminho para a purificação e a intercessão pelas almas.
Falar do Nordeste é falar da religiosidade popular do sertão nordestino. No caso dos penitentes baianos, sua autenticidade reside na permanência dos antigos rituais, das vestimentas e dos cantos, cuidadosamente preservados e repetidos a cada cerimônia. Esses elementos, longe de serem meras formalidades, funcionam como instrumentos vivos de transmissão cultural, conectando o presente ao passado e garantindo a continuidade de uma memória coletiva profundamente enraizada na fé e no território.
Referência
LIMA, R.Escrituras nos corpos, na roça e na cidade: as diferentes penitências no Médio São Francisco. Sociedade e Cultura, Universidade Federal de Goiás (UFG), v. 9, n. 1, p. 105-120, jan.-jun., 2006.

