Amazonas, Pará, Acre, Mato Grosso, Goiás, são alguns dos estados onde se concentra a maior população de ribeirinhos – pessoas que vivem às margens dos rios, lagos, igarapés, igapós, tendo forte ligação com a natureza fluvial, para a alimentação e o transporte. Mas é no Amazonas onde se concentra a maior população de ribeirinhos, que vivem em situação precária, com casas suspensas por palafitas, sem saneamento básico, assistência médica, energia elétrica.
Foi no século XIX que começou a surgir o povo ribeirinho da Amazônia, com o ciclo da borracha. A promessa de trabalho, com a extração do látex, começou a atrair muita gente. Com a crise que se abateu sobre a borracha, a partir de 1950, muitos seringueiros ficaram sem trabalho. Sem para onde ir, se instalaram às margens de rios.
A história dos ribeirinhos inclui a miscigenação de povos nativos e colonizadores portugueses, além dos migrantes nordestinos. Todos vivendo às margens dos rios, na floresta, tentando descobrir um modo de sobreviver com a natureza. Os novos moradores foram se adaptando à vida com os rios, principalmente ao redor do Rio Negro e Rio Amazonas.
Não se sabe qual a população de ribeirinhos no Brasil.
E é essa população, junto com quem mora em áreas rurais, que se encontra o maior desafio do saneamento básico: chegar a essas pessoas no suprimento de água e esgotamento sanitário. É dentro desse contexto que o pequeno município fictício de Linha Cristal, no Rio Grande do Sul, que os moradores, em sua maioria descendentes de italianos, se mobilizam para que a prefeitura invista em uma fossa para o tratamento de esgoto. Um grupo vai até a prefeitura e recebe a informação de que não há dinheiro para o saneamento. Mas que há R$ 10 mil destinado para a produção de um filme que, se não for usado, estaria prestes a ser devolvido para o governo federal. Surge, então, a ideia de fazer um filme barato sobre a própria obra. Porém, a retirada do dinheiro depende da apresentação de um roteiro e de um projeto de um filme, além de haver a exigência que ele fosse de ficção. Os moradores se reúnem, formam uma comissão, para elaborar um filme barato, que conta a história de um monstro que vive nas obras da construção de uma fossa.
Exibido em 2007, Saneamento Básico – o Filme – o filme foi gravado em 2006 -, voltou aos cinemas no final de maio deste ano, e é uma crítica pela falta de investimentos em saneamento básico e a priorização de investimentos em áreas como a cultura, às custas de questões essenciais para a população. Embora investir em cultura seja importante, o filme questiona a burocracia para se ter acesso a financiamentos e a falta de recursos para solucionar os problemas do tratamento de água e esgoto.
O fio condutor do filme é o questionamento porque o Estado não investe em saneamento básico – de 2007 para cá a situação melhorou, mas ainda continuam as dificuldades de acesso ao crédito e a burocracia -, deixando a população, especialmente das regiões mais carentes, sem água e esgoto. Também questiona a burocracia e a importância da participação popular na luta por seus direitos básicos, como o saneamento em um contexto de mudanças no modelo de gestão do Estado, onde as pessoas são cada vez mais responsabilizadas pela gestão de suas vidas.
Como debatido ao longo do III Seminário Internacional Universalizar, realizado em abril em Fortaleza, sem vontade política, recursos e conscientização da população sobre as externalidades do saneamento – redução de doenças, gastos com remédios, aumento da presença das crianças nas escolas, dos trabalhadores no emprego, menor pressão sobre o sistema público de saúde -, ainda vamos demorar para chegar à universalização prevista pelo Marco Legal do Saneamento para 2033. Já se fala em 2040.
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